A economia solidária

O conceito de Economia solidária se refire a um conjunto de experiências econômicas que questiona a lógica capitalista da acumulação e toma em conta dimensões humanas além da dimensão econômica dentro dos grupos e processos de produção, comércio, distribuição de bens e serviços, e de consumo, incentivando a autogestão e a solidariedade dentro desses grupos.

Falando em “dimensões humanas além da dimensão econômica”, se entende a valorização das relações solidárias, ou seja uma redefinição das relações entre os membros dos grupos no que tem a ver com a organização da produção e os comportamentos de consumo, visando a autonomia e o bem-estar de todos em vez do enriquecimento de uma minoria, segundo a lógica capitalista.

Autogestão e solidariedade

A idéia de autogestão dos grupos de economia solidária implica a completa igualdade de direitos dos membros dentro da organização: igual repartição da propriedade no caso de uma organização produtiva, igual direito de participação nas decisões e na escolha de representantes políticos.

À idéia de solidariedade se contrapõe as idéias de individualismo e competitividade do capitalismo. Justamente, outra especificidade da economia solidária é que ela se destine de modo geral a população trabalhadora, com ênfase na ajuda aos mais desfavorecidos. Isso significa que a idéia é incentivar a formação de empreendimentos de economia solidária por desempregados, empregados em situações críticas, e pobres em geral.

Quatro dimensões da Economia solidária

Encima apresentados os princípios de base da economia solidária, outras especificações podem permitir um enteendimento mais profundo do conceito. A Professora Ana Mercedes Sarria Icaza , no contexto do Ciclo de Debates Socioambientais do DESMA/PGDR-UFRGS, apresentou sob o tema da “Economia solidária” quatro dimensões comuns dentro da variedade dos conceitos da ES.

A dimensão teórica e de projeto apresenta a ES como ambos construção teórica crítica do modelo dominante e proposta concreta de modelo aplicável na prática. A segunda dimensão, a sócio-econômica, fala da diversidade e heterogeneidade das experiências econômicas (várias formas de associação dos grupos, todas baseadas nos princípios da autogestão e da solidariedade; aplicadas à produção, comercialização, consumo, etc.) e campos de atuação dos atores da ES (mundo urbano popular, agrícola, sindical, etc.). A terceira dimensão sendo a sócio-política, ela se caracteriza por atores sociais que demandam novas relações e novas formas de organização. Finalmente, a quarta, a institucional, implica ações e políticas de estado para promover, incentivar as formas de organização associativa como alternativas ao desenvolvimento socio-econômico.

Existem várias formas de empreedimentos de organização solidária: cooperativas de pequenos produtores autônomos, cooperativas de habitação, de compras, de crédito, de poupança, clubes de troca, etc., segundo o contexto e as necessidades do grupo.
Existem também várias definições e aplicações do conceito da economia solidária, mas pela
necessidade do presente trabalho, vamos enfocar os grupos de produtores (neste caso, principalmente de artesanato) rurais, com objetivo, entre outros, de geração de renda.

Desenvolvimento e Economia solidária

Relacionando os dois conceitos, “desenvolvimento” e “economia solidária”, podemos considerar a ES como proposta de “nova economia”: na atual crise do capitalismo, abre-se a possibilidade de emergência de um modo de produção associado. Nesse sentido, a força da ES seria mais pedagógica que econômica, ela serve para aprofundar formas de “sociedade autônoma à margem da economia dominante”. Concretamente, de maneira em criar uma resistência a esse modo de vida, é preciso fortalecer experiências concretas, desenvolver redes, "cadeias produtivas" e "arranjos produtivos locais".

Principais desafios

Os desafios da ES como alternativa ao modo de vida capitalista são vários. Primeiro, internamente, é preciso tomar em conta a pluralidade dos empreendimentos e das experiências. Segundo, tem que lidar com a fragilidade econômica deles, pois muitas vezes a experiência na realização dessas novas formas de empreendimentos é reduzida: não existe uma metodologia própria, uma experiência coletiva no contexto atual.

Um dos maiores desafios para a ES é aquele da autonomia. Como desenvolver empreendimentos de ES sem impor-lhes e de maneira que o grupo alvo se aproprie esse modo de organização e se volte autônomo?

Também, um projeto há de ser uma resposta a uma necessidade da população local. Caso contrário, as probabilidades são que a população não se apropriará do projeto pois não vê a necessidade daquilo, e depois da implementação do projeto, quando os articuladores forem embora, o projeto cair. Para um projeto ser viável e duradouro, melhor ter certeza de que o projeto proposto é uma resposta a uma demanda local.

O presente texto foi tirado de um trabalho que apresentei na disciplina "Seminário de sociologia III : Desenvolvimento e Projetos Sociais" da Faculdade de Ciências Sociais da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). O trabalho foi feito sobre a meta de Economia solidária de um projeto visando o desenvolvimento rural sustentável no Município de Maquiné (O trabalho completo está anexado).

AnexoTamanho
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